Situada na favela Rio das Pedras, zona oeste do Rio de Janeiro, a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício é ponto de encontro para apaixonados por histórias e os livros. O público-alvo são jovens e adultos, crianças que moram nos arredores da biblioteca e trabalhadores que eventualmente visitam a biblioteca e pegam livros emprestados. A biblioteca atua na favela desde 1997 e fui conhecer um pouco mais de sua história, seus usuários e a equipe que está por trás do espaço - pequeno em tamanho, mas enorme em importância para a conscientização da comunidade que dela usufrui.
Cheguei e fui recepcionado em clima de bagunça: Ruan, Kelly e Maria Rhauane conversavam enquanto descobriam o acervo da biblioteca. Em confissão, disseram que não leem tanto, mas que visitam frequentemente a biblioteca e participam das atividades.
Com as crianças, pude realizar brevemente uma contação da história "A Moça Tecelã", de Marina Colasanti, que faz parte do acervo da biblioteca e estava em destaque. Este é um livro que conheci na faculdade e que traz questionamentos válidos para adultos e crianças. Ao fim da história, o deles foi: "Tecer é costurar?"
Carlos Honorato foi quem me contou um pouco mais sobre o cotidiano da biblioteca. Cheguei e ele estava retirando etiquetas de livros já catalogados, resultado de uma mudança de catalogação pela qual a biblioteca está passando. O sistema de catalogação usado por eles é o de cores, criado pela bibliotecária Cida. Entre uma etiqueta e outra, batemos um papo e conheci melhor a história do espaço, da proposta e da origem do nome que batiza a biblioteca.
O fluxo da biblioteca é grande. Em média, o espaço recebe em torno de 35 crianças por dia, que frequentam as atividades e fazem companhia à equipe. Já o público adulto é contemplado pelos empréstimos, feitos de segunda à quinta-feira. A sexta é reservada para atividades internas.

Para Carlos, que é pedagogo e faz pós-graduação em Literatura Infanto-juvenil, a biblioteca exerce um papel fundamental na vida de seus usuários. Ainda que existam as bibliotecas públicas, as bibliotecas comunitárias são mais próximas da comunidade e oferecem livros e serviços de qualidade, além de atividades que incentivam a reflexão sobre os problemas enfrentados por uma favela tão grande como Rio das Pedras. Além da leitura, o trabalho feito na biblioteca mostra à crianças e adolescentes que ali eles exercem papéis de cidadãos. A comunidade reconhece o trabalho prestado pela biblioteca e Carlos, também morador de Rio das Pedras, conta que as crianças sabem onde é sua casa e cobram caso a biblioteca esteja fechada.


A história da Biblioteca Comunitária Wagner Vinício teve início em 1997. Na época, a biblioteca não se caracterizava como tal, sendo um espaço com atividades artísticas, de música e pintura. Carlos foi aluno destes projetos e participou do coral. Em 2006, o eixo te trabalho do projeto mudou, e o Instituto C&A (principal financiador do projeto) o transformou num espaço de leitura. A equipe então recebeu formações a fim de capacitá-los a atuarem com mediação de leitura, catalogação, acervo e gestão. Com o tempo, o espaço foi renovado e em 2009 já era caracterizado como biblioteca.
À princípio, o acervo era montado através dos livros recomendados pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil) e por outras instituições reconhecidas na área. Hoje, a equipe já monta o acervo de acordo com a demanda da comunidade e com o que acham interessante levar para a biblioteca.
Já o nome da biblioteca é uma homenagem a um ex-morador de Rio das Pedras. Wagner Vinicio faleceu muito jovem, vítima de um acidente de carro que em vida participou ativamente do projeto. Mesmo antes do projeto ser caracterizado como biblioteca, Wagner foi uma das primeiras pessoas a doar livros para a equipe. Esta homenagem conecta a comunidade ao espaço, dando o sentimento de pertencimento ao morador.
Cristiane Almeida Rodrigues, formada pela UNIRIO, é a bibliotecária da biblioteca. Carlos reconhece que bibliotecas devem ter bibliotecários, mas admite a dificuldade de encontrar profissionais dispostos a trabalharem em bibliotecas comunitárias, que costumam pagar menos que as outras. O diploma de Cristiane é mostrado com orgulho no mural, já que a bibliotecária não está todos os dias no espaço, mas faz reuniões via Skype e Hangouts com a equipe.
Dois livros de Lúcia Fidalgo, professora da disciplina Biblioteca, Informação e Sociedade, podem ser encontrados no acervo da biblioteca, mas estavam emprestados durante minha visita. Pude perceber que o acervo ali presente é bem amplo e abarca temas atraentes para crianças, jovens e adultos, contando inclusive com lançamentos.


Bibliotecas podem e devem ser espaços políticos e a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício desempenha este papel muito bem. O que mais me chamou atenção assim que entrei foram alguns folhetos à disposição do público que abordam a questão da transexualidade e da transfobia. O acesso à este tipo de informação pelo favelado é difícil, digo por experiência própria, e ver que a biblioteca age no papel de conscientizar a população sobre este assunto é louvável. No quadro de avisos, outra mensagem política: "Fora Temer", um grito dado por educadores, bibliotecários, mediadores de leitura e todos que reconhecem a ilegitimidade deste governo golpista e contra os interesses da população.
Antes de ir embora, presenciei as crianças usufruírem de outro serviço prestado pela biblioteca: o de cineminha. Carlos ria enquanto as crianças pediam por um filme de terror, no que ele contestou: "Ah não, esse tem muito sangue!".
Por fim, agradeço a disponibilidade que Carlos teve em me receber. Como morador de Rio das Pedras e futuro bibliotecário, tenho um enorme carinho pelo trabalho realizado por toda a equipe. São ações como esta que contribuem para a melhoria de nossa sociedade e dão voz e consciência aos mais pobres. Agradeço também à Luzia, coordenadora do projeto e que tanto me aguenta quando agendo visitas à biblioteca. Muito obrigado!
A Biblioteca Comunitária Wagner Vinício é aberta ao público de segunda à quinta-feira.
Mais informações:
Biblioteca Wagner Vinicio, do Projeto Plantando O Futuro
Estrada de Jacarepaguá, 5411, Quadra 1, casa 55
Rio das Pedras - Rio de Janeiro
Telefone: (21) 22753-047
Skype: plantandoofuturo10.